Com LATAM, Gol e Emirates recrutando no mesmo semestre, cresce a fila de quem tem certificado na mão. A disputa passou a se decidir na etapa que quase ninguém trata como parte da formação: a preparação para a seleção
O mercado de trabalho da aviação brasileira opera em ciclo de alta, e não por movimento de uma companhia só. A LATAM abriu processo seletivo com previsão de quase mil vagas de comissário de bordo para 2026, antecipando inscrições, depois de contratar mais de 700 comissários e pilotos em 2025. A Gol mantém cadastro externo aberto para comissário de voo, com inscrições até dezembro de 2026, acionado conforme a abertura de turmas. E a demanda deixou de ser apenas doméstica: a Emirates recruta no Brasil por meio de agência oficial, com etapa de triagem em São Paulo marcada para outubro, de onde os selecionados seguem para o assessment conduzido pela própria companhia. No pano de fundo, executivos do setor tratam a escassez de tripulantes como risco operacional do ano, e a projeção da Boeing estima 2,37 milhões de novos profissionais necessários na aviação comercial global até 2044.
Vaga, portanto, existe. O que os números escondem é a taxa de conversão. Entre concluir o curso preparatório e vestir o uniforme há uma peneira que elimina candidatos plenamente formados, muitos deles com certificado e documentação em ordem. A queixa recorrente de quem sai reprovado raramente é sobre conteúdo técnico. É sobre a etapa presencial.
Faz sentido quando se olha o que a seleção mede. As companhias avaliam base técnica e familiaridade com procedimentos de emergência, mas fazem isso dentro de dinâmicas de grupo, testes de idioma, entrevistas e avaliações presenciais em que postura, apresentação pessoal e comportamento sob observação pesam tanto quanto a prova. Nas seleções internacionais, o filtro é ainda mais explícito: a triagem existe justamente para avaliar o candidato pessoalmente antes de qualquer análise aprofundada de currículo.
É aí que a escolha da formação pesa mais do que o candidato imagina. A escola de aviação prepara para além do conteúdo técnico: o aluno desenvolve familiaridade com segurança, procedimentos, atendimento, trabalho em equipe, postura profissional e situações práticas da atividade, exatamente as competências que a companhia observa na etapa presencial. A exigência documental acompanha o movimento: processos seletivos recentes têm solicitado documentos como o CCT (Certificado de Conhecimentos Teóricos) e o certificado de treinamento prático. Ou seja, o conteúdo técnico é o piso, e o diferencial migrou para o que vem depois dele: prática real e preparo para a etapa que reprova.
No CEAB, escola de aviação com 27 anos de mercado, essa preparação tem data e endereço. Um dia depois da prática de sobrevivência em selva, exercícios no mar e combate ao fogo, a turma da modalidade a distância que acaba de concluir a etapa prática participa do Open Day, jornada presencial em hotel de alto padrão que reúne palestras sobre o mercado da aviação e aulas práticas de postura, etiqueta e apresentação pessoal. A próxima edição acontece em 27 de setembro.
▶ Vídeo: treinamento prático de sobrevivência na selva do CEAB – https://youtu.be/-4cdQ90vaSw
A sequência não é acidental. O aluno sai do dia mais duro da formação, o que prova que a profissão é de segurança de voo antes de ser de atendimento, e entra no dia que trata da camada que a seleção observa primeiro.
“Nossa parte técnica termina na selva. Só que a companhia não contrata só o técnico: ela contrata alguém que vai representar a marca dela na frente do passageiro. O Open Day existe para o aluno chegar na seleção já tendo passado por isso uma vez”, afirma Salmeron Cardoso, diretor e CEO do CEAB.
Para quem estuda a distância, a etapa responde a uma objeção específica do formato. A crítica mais comum ao EAD é a de que o aluno se forma sem nunca ter sido observado por um instrutor fora da tela, exatamente a situação que a seleção vai criar. Concentrar prática de emergência e imersão presencial em dias consecutivos transforma a viagem única do aluno de fora do eixo em duas etapas com finalidades distintas.
“Quem estuda longe não pode chegar na seleção sendo a primeira vez que alguém olha para ele de perto. Esse é o risco real do ensino a distância, e é o risco que a gente decidiu tratar”, diz o executivo.
Do ponto de vista de quem vai disputar as próximas seleções, o roteiro de preparação tem quatro camadas, nessa ordem: documentação em dia, base técnica de emergência consolidada, idioma em nível de conversação, exigência que aparece tanto nas vagas domésticas quanto nas internacionais, e treino de apresentação presencial. As três primeiras qualquer escola séria entrega. A quarta costuma ser deixada para o candidato resolver sozinho, na véspera.
A conta de timing joga a favor de quem se organiza agora. As seleções em volume tendem a se repetir enquanto durar a expansão de malha e a reposição de tripulações, e a formação preparatória leva alguns meses. Quem entra na janela com certificado e sem preparo presencial concorre em desvantagem contra alguém igualmente formado. O mercado aquecido não reduziu a exigência: ele aumentou a fila de gente qualificada disputando a mesma vaga.


