Saúde mental virou questão de negócio

# Saúde mental virou questão de negócio

A nova realidade do mercado de trabalho já não cabe mais nas métricas tradicionais de produtividade. Em um cenário de hiperconectividade, pressão constante e excesso de estímulos, empresas brasileiras começam a perceber que o desgaste emocional dos profissionais não termina quando o expediente acaba – ele atravessa a porta de casa, afeta relacionamentos, compromete vínculos familiares e começa a gerar um custo invisível para organizações de todos os tamanhos.

A partir de 26 de maio de 2026, esse debate deixa de ser apenas uma preocupação de bem-estar e passa oficialmente para o campo regulatório. A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) determina que riscos psicossociais – como estresse crônico, sobrecarga, assédio e hiperconectividade – sejam tratados como riscos ocupacionais formais pelas empresas. Segundo o psiquiatra corporativo Dr. Daniel Sócrates, especialista em saúde mental no trabalho, a mudança representa uma virada histórica. 

“O sofrimento psíquico no trabalho deixou de ser tratado como fragilidade individual e passou a ser reconhecido como risco organizacional”, afirma o especialista. Segundo ele, o Brasil registrou mais de 534 mil afastamentos por transtornos mentais em 2025, com impacto bilionário para o INSS e para as empresas. 

O profissional sai do escritório, mas o cérebro continua trabalhando

Para a psicóloga e neuropsicóloga Tatiana Serra, um dos efeitos mais silenciosos da cultura da disponibilidade constante é a perda da presença emocional dentro de casa.

“Muitas pessoas estão fisicamente com a família, mas mentalmente ainda presas ao trabalho. Isso enfraquece vínculos afetivos e reduz a disponibilidade emocional para os filhos e parceiros”, explica.

Segundo ela, crianças percebem quando os pais estão emocionalmente indisponíveis, mesmo que estejam sentados ao lado delas. “O desenvolvimento emocional infantil depende de interação genuína, validação e atenção responsiva. Quando isso falha de forma constante, podem surgir irritabilidade, insegurança emocional e distanciamento afetivo.”

A especialista afirma que o estresse contínuo altera diretamente o funcionamento cerebral. Sob pressão crônica, o organismo mantém níveis elevados de cortisol e adrenalina, afetando regiões ligadas à memória, tomada de decisão, regulação emocional e empatia.

“O cérebro entra em estado permanente de vigilância. A pessoa fica mais reativa, impulsiva, ansiosa e emocionalmente esgotada”, diz Tatiana.

Entre os sinais mais comuns de sobrecarga mental estão irritabilidade frequente, sensação constante de cansaço, dificuldade de concentração, insônia, dores musculares, baixa imunidade e dificuldade de se desconectar do trabalho.

O cérebro corporativo em modo de sobrevivência

Para Dr. Daniel Sócrates, o ambiente corporativo moderno está operando o cérebro humano “fora da especificação”.

“O trabalhador atual vive sob uma avalanche de notificações, metas abusivas e hiperconectividade. O sistema de atenção permanece em alerta contínuo, como se estivesse sempre esperando uma ameaça”, afirma. 

Segundo ele, o excesso de estímulos digitais mantém o eixo do estresse constantemente ativado, elevando os níveis de cortisol de forma crônica. Isso compromete funções cognitivas essenciais.

“O ambiente corporativo cobra criatividade, equilíbrio e pensamento estratégico, enquanto simultaneamente desliga exatamente as áreas cerebrais responsáveis por isso”, diz. 

O resultado aparece no chamado presenteísmo – quando o funcionário continua trabalhando, mas já não consegue entregar desempenho pleno. Segundo dados citados pelo psiquiatra, cerca de 90% das pessoas com burnout permanecem trabalhando mesmo em estado de esgotamento. 

O ambiente também adoece – ou ajuda a recuperar

A neurocientista e aromaterapeuta Daiana Petry afirma que o cérebro responde o tempo inteiro aos estímulos do ambiente de trabalho – inclusive aos invisíveis.

“Ruído excessivo, iluminação inadequada, hiperconectividade e excesso de estímulos mantêm o sistema nervoso em estado contínuo de alerta”, explica. 

Ela cita estudos que mostram que o estresse crônico enfraquece o córtex pré-frontal – área ligada ao foco, clareza mental e autorregulação emocional – e empurra o cérebro para um estado mais impulsivo e reativo. 

Por outro lado, pequenas mudanças ambientais podem favorecer recuperação cognitiva e redução do estresse. Ambientes com iluminação natural, ventilação adequada, menos ruído e presença de plantas já demonstraram efeitos positivos sobre bem-estar e desempenho mental. 

Daiana destaca ainda o papel do olfato na regulação emocional. Segundo ela, determinados aromas conseguem modular estados fisiológicos em poucos minutos devido à conexão direta do olfato com estruturas cerebrais relacionadas às emoções e à memória. 

“Não se trata de transformar o escritório em um spa, mas de criar pequenas pausas de regulação neurofisiológica”, afirma.

Entre as estratégias possíveis estão pausas respiratórias de cinco minutos, ambientes de descompressão sensorial, redução de estímulos visuais agressivos e o uso discreto de aromas cítricos ou relaxantes em momentos de maior fadiga mental. 

O que pequenas empresas podem fazer agora

Especialistas afirmam que o principal erro das empresas é tentar resolver o problema apenas com ações pontuais de bem-estar sem enfrentar as causas reais da sobrecarga.

Para Dr. Daniel Sócrates, o primeiro passo é reconhecer que saúde mental deixou de ser apenas um tema humano – virou questão estratégica.

Entre as medidas mais urgentes para pequenas e médias empresas estão:

  • estabelecer horários claros para início e fim da jornada; 

  • reduzir cobranças e mensagens fora do expediente; 

  • revisar metas incompatíveis com a capacidade real da equipe; 

  • capacitar lideranças para comunicação mais saudável; 

  • criar espaços de escuta e acolhimento; 

  • estimular pausas reais durante o dia; 

  • incentivar momentos sem telas e desconexão. 

Tatiana Serra reforça que o equilíbrio entre vida pessoal e profissional não depende apenas de produtividade, mas de preservação emocional.

“O ser humano é integrado. O que acontece no trabalho afeta a família – e o que acontece na família também impacta o desempenho profissional”, afirma.

Já Daiana Petry lembra que pausas não representam perda de tempo, mas recuperação cognitiva.

“O cérebro não foi projetado para permanecer continuamente em estado de alerta. Pequenos momentos de pausa ajudam a restaurar foco, equilíbrio emocional e capacidade de decisão.” 

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